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	<title>A Montanha &#187; conficção</title>
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	<description>A Montanha, Blog de Montanhismo - Vinicius Ribeiro</description>
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		<title>Confissões de um montanhista sem vergonha</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2009 01:43:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Os montanhistas e suas confissões&#8230; que coisa mais bacana. Eu acredito na tese de que se você tem um ligeiro domínio da linguagem escrita e conhece outro tanto de termos técnicos e jargões de escalada, e também possui uma carência simples de moralismo, você é capaz de enganar os doutores da eugenia montanhística em suas próprias circunstâncias. E uma tese é, como eles mesmos dizem, uma medida de importância. </p>
<p>-x-x-x-</p>
<p>Quando eu tinha 3 anos, lembro que assistia às chacretes no programa do Chacrinha e ficava de pinto duro. Depois, com 6 ou 7 anos, levei uma prima no banheiro da casa de meus avós e abaixei as suas calças, para averiguar pessoalmente o que eu imaginava que ela tinha ali. Com 11 anos eu bati minha primeira punheta, e limpei a ferramenta na cortina do meu quarto. Com 17 enfrentei meu primeiro susto, mas a menina não estava grávida, ainda bem. Meu recorde de altitude foi fazer sexo numa montanha de nome Mãe Catira, a 1.457 m acima do nível do mar, na Serra da Graciosa, mas nesta época eu já era um cara com anos de experiência.</p>
<p>-x-x-x-</p>
<p>Uma vez eu estava fazendo um cigarro artesanal, num tempo em que eu ainda fazia isso, sentado no chão da floresta. Já era noite e eu estava com uma lanterna de cabeça iluminando meu trabalho. Ao redor algumas pessoas aguardavam a confecção do cigarrinho, a fim de desfrutar das conseqüências sociais que se tem ao fumar tal artefato, assim como os elefantes africanos fazem com a <em>Sclerocarya birrea</em>. De repente uma mariposa se viu atraída pela luz de minha lanterna, e veio dar com aquele bater de asas em minha cara. Aí que eu me assustei, e como estava com as mãos ocupadas, joguei tudo pro ar, dando um grito que não foi afeminado, mas que também não pareceu lá muito másculo. Pronto, bastou para que a piazada ficasse me apavorando a idéia. A gente saiu do Agudo da Cotia e desceu até o Marco 22, e até hoje alguém lembra desta história e vem me encher o saco.</p>
<p>-x-x-x-</p>
<p>Beleza, que cessem as confissões. Depois ninguém vai querer aparecer comigo na montanha, temendo ficar mal falado.</p>
<div id="attachment_271" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/vergonha.jpg" alt="confissões de um montanhista sem vergonha" title="vergonha" width="408" height="306" class="size-full wp-image-271" /><p class="wp-caption-text">confissões de um montanhista sem vergonha</p></div>


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		<title>De como me tornei um montanhista vingativo</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 02:51:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Houve época na família em que dinheiro para as férias escolares não era problema. Uma vez passamos as festas de final de ano nas montanhas da serra paranaense. Noutra, nas montanhas da vizinha Santa Catarina. Quando eu tinha 12 anos, [...]

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Houve época na família em que dinheiro para as férias escolares não era problema. Uma vez passamos as <a href="http://amontanha.com.br/posts/a-mariposa-de-um-natal-na-montanha/">festas de final de ano nas montanhas da serra paranaense</a>. Noutra, nas montanhas da vizinha Santa Catarina. Quando eu tinha 12 anos, ficamos o recesso de inverno inteiro no Complexo da Pedra do Baú, lá em São Bento do Sapucaí, estado de São Paulo, bem próximo à divisa com Minas Gerais. Nesta vez foi conosco o meu primo Robertinho, de 14 anos, que era do interior do Paraná e tinha vindo a Curitiba justamente para fazer esta viagem.</p>
<p>Gostava muito deste meu primo. Sempre que estávamos reunidos na montanha fazíamos coisas notáveis, subíamos cumes que apenas os adultos subiam, encadenávamos vias cabulosas, uma verdadeira maravilha. Portanto, sob o ponto de vista de quem é um montanhista juvenil, a situação estava mais do que sob controle. Éramos duas crianças felizes brincando na montanha, esse é o ponto. E nesta viagem mantivemos a escrita. Até que, de repente, recebemos visitas. Eram dois outros primos distantes, de Porto Alegre. Eles ficaram sabendo que a família toda estava no Baú, por isso resolveram aproveitar a oportunidade da nossa companhia. Foi a partir da chegada desses primos que meus problemas começaram a aparecer.</p>
<p>Juca e Joca nasceram gêmeos, 15 anos, possuíam bigodinho adolescente na cara, escalavam melhor que eu. Dávamos-nos bem e tudo, mas eles tinham mais afinidade com o Robertinho, o meu primo do interior. E pelo fato de os três serem mais velhos, também podiam sair à noite para pegar as menininhas, coisa que eu não fazia por ainda ser criança, apesar de já estar me acabando no sexo solitário durante os banhos. O Robertinho, com aquela sua espontaneidade de piá do sertão paranaense, foi pouco a pouco me abandonando, só indo pra montanha na companhia do Juca e do Joca.</p>
<p>De uma hora pra outra passei a me ver muito triste, pois não tinha mais com quem brincar. Eles saíam escondidos, evitavam minha presença. Até para comprar pão na padaria da esquina davam um jeito de ir sem mim. Fiquei absolutamente solitário, batendo bola na parede, e a tristeza reinando soberana como nuvem de tempestade pelas montanhas da minha mente.</p>
<p>Mas Juca e Joca, assim como vieram, se foram. Um dia precisaram voltar pra casa, aí que Robertinho voltou a ter apenas a minha pessoa como parceira de empreitada. Numa tarde de sol e céu azul, enquanto eu brincava com os meus bonequinhos do Comandos em Ação, ele todo faceiro, cheio de equipamentos coloridos na mochila, chegou até mim e cantou:</p>
<p>- Escute, não estás a fim de dar uma bela pernada agora? A gente sobe até o Bauzinho e faz aquele lance lá. Que tal?</p>
<p>Eu fiquei super feliz! Um convite como aquele bastava para que me largasse na estrada novamente e esquecesse todas as mágoas que abundavam em meu coração. Corri para o quarto, peguei o equipamento que estava jogado num canto e comecei a ajeitar a mochila. Depois segui até a cozinha, completei uma garrafinha com um tanto de suco gelado, e fui comunicar os meus planos à primeira mulher a mandar na minha vida:</p>
<p>- Ó, mãe, to indo com o Robertinho lá pra cima. Vamos subir aquela parada que eu te falei outro dia e coisa assim. Ta ligada? Volto ao entardecer. Não se preocupe com o jantar que depois faço um miojo. Fique susse, pode crer.</p>
<p>Eu, com 12 anos, já era desta maneira, todo resolvido e independente, falava algumas gírias aprendida com os piás da rua. Mamãe, que desde o começo percebera que o Robertinho havia trocado a minha companhia pela do Juca e Joca, esperou que eu terminasse meu empolgado palavreado, olhou bem nos meus olhos e disse com ar muito sério:</p>
<p>- Não, você não vai à porra de lugar algum. Ao inferno com o Bauzinho. E avise aquele veadinho do Roberto que você tem compromisso pra hoje a tarde. Agora que ele está sozinho, quer ir pra montanha contigo? Mas nem fodendo! Onde já se viu? Depois eu vou contigo e a gente faz o circuito todo.</p>
<p>Voltei para o quarto bem aborrecido, e não lembro o que o Robertinho fez diante da impossibilidade de acompanhá-lo montanha acima. Só sei que apenas anos depois consegui entender o significado daquele ato da senhora minha mãe: Ensinar o que era vingança.</p>
<div id="attachment_242" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/bau.jpg" alt="No cume da Ana Chata, com a Pedra do Baú ao fundo." title="bau" width="408" height="308" class="size-full wp-image-242" /><p class="wp-caption-text">No cume da Ana Chata, com a Pedra do Baú ao fundo.</p></div>


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		<title>Água de Vina</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 00:53:32 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta via foi conquistada após duas investidas de reconhecimento. A montanha se chama Espinhento, localizada ao sul do bloco turístico do maciço do Marumbi, e o esquema é cheio de espinho mesmo. O nome da via é um trocadilho triplo, talvez dê pra entender com o passar do tempo, de acordo com a sagacidade de quem obtém as informações.</p>
<p>A escalada em si é simples, e fez uso de equipamento móvel para ser mais ecológica: um jogo de estacas de ferro de barraca estilo canadense. A base da via fica na parede noroeste da montanha, e o acesso se dá pelo colo entre o próprio Espinhento e a montanha de nome Chapéu. Quem vem do norte deve descer pelo Pelado, seguir rumo às pedras empilhadas e em seguida descer o barranco da parede. A linha escalável segue uma pequena laca repleta de líquen, depois converge para uma fenda, que finalmente termina no platô da andorinha &#8211; havia um ninho na época da conquista -, onde é possível armar a parada em duas bromélias de tamanho monstruoso, coisa muito firme. Depois há mais um trepa-mato tenso e suspenso, que ao final recompensa o indivíduo com um dos cumes mais obscuros da serra do mar paranaense.</p>
<p>No colo não há água em poço conhecido, então carregue tudo do fundo do vale. Um acampamento pode ser montado por ali, mas cuidado com as formigas, que são por demais agressivas. Após toda a viagem, voltar pra casa é possível seguindo o rumo sul por alguns dias, ou pelo norte mesmo, se não for final de semana.</p>
<p>A via foi graduada em 5° VIsup A0 E1 D1 40 metros e provavelmente não será mais repetida.</p>
<div id="attachment_233" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/espinhento.jpg" alt="Água de Vina, via de escalada no Espinhento, Serra do Marumbi" title="espinhento" width="408" height="308" class="size-full wp-image-233" /><p class="wp-caption-text">Água de Vina, via de escalada no Espinhento, Serra do Marumbi</p></div>


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		<title>Uma travessia pelo Ibitiraquire</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Apr 2009 22:17:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chico Trevas, nascido Francisco Trevisan, foi pra Serra do Ibitiraquire. Seu objetivo era fazer a travessia do Itapiroca até o Camapuã, passando pelo Cerro Verde e Tucum. Chico era montanhista do mundo virtual, aquele tipo de pessoa que coleciona revista [...]

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Chico Trevas, nascido Francisco Trevisan, foi pra <a href="http://amontanha.com.br/tag/ibitiraquire/">Serra do Ibitiraquire</a>. Seu objetivo era fazer a travessia do Itapiroca até o Camapuã, passando pelo Cerro Verde e Tucum. Chico era montanhista do mundo virtual, aquele tipo de pessoa que coleciona revista de aventura, além de acreditar nos imbecis que lá relatam suas peripécias em fotos coloridas cheias de pose. O nosso Chico morava com a avó materna, por quem foi inclusive criado, mas queria mesmo é largar seu emprego falcatrua. Ele viu num programa de televisão a cabo, um sujeito que era fodão e sobrevivia apenas com as coisas da natureza. O cara fazia fogueira com dois gravetos, comia bicho vivo, tomava água de bromélia. Aí o Chicão se animou, concluiu que já estava apto a tentar ser igual ao elemento da televisão, então foi pra travessia sem levar comida, apenas uma faca estilo Rambo. No vale entre o Itapiroca e o Cerro Verde, encontrou bosta seca de gato do mato, de onde separou uns pedacinhos de fruta e comeu com um desgosto incrível. Na subida do Cerro Verde flagrou um tatu entre os arbustos, mas não foi ágil o suficiente para capturá-lo. Na calada da noite, a chuva molhou seu ridículo acampamento improvisado. Dia seguinte, subindo a inclinada encosta do Tucum, achou um caracol, que comeu com casca e tudo. Já descendo o Camapuã em frangalhos, cruzou com um cara barbudo que subia o caminho bem tranquilamente. Delirando, Chico avisou ao infeliz que vinha chuva do litoral, o qual perguntou se ele, por acaso, sabia com quem estava falando. Chico não sabia, e antes de chegar à floresta, desmaiou de cansaço e fome, cheio de vermes na barriga. Em casa, tomando um leitinho quente da avó, Chico aboliu o sobrenome Trevas. Com uma profunda mágoa em seu coração, agora se proclama Chico Hasta La Vista. E o tal barbudo resolveu relatar esta história em seu blog.</p>
<div id="attachment_192" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/tucum-pico-parana.jpg" alt="Pico Paraná, União, Ibitirati, Tupipiá e Camelos vistos do cume do Tucum. À direita, em primeiro plano, a encosta do Cerro Verde. E à esquerda a do Itapiroca." title="tucum-pico-parana" width="408" height="308" class="size-full wp-image-192" /><p class="wp-caption-text">Pico Paraná, União, Ibitirati, Tupipiá e Camelos vistos do cume do Tucum. À direita, em primeiro plano, a encosta do Cerro Verde. E à esquerda a do Itapiroca.</p></div>


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		<title>O peladão do Araçatuba</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Mar 2009 16:34:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aconteceu no começo deste século. Um grupo organizado de montanhistas, aqui da cidade, resolveu preparar expedição ao Araçatuba, montanha localizada ao sul das serras paranaenses. Na falta de uma pessoa que conhecesse o caminho, me voluntariei para guiar a subida. [...]

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Aconteceu no começo deste século. Um grupo organizado de montanhistas, aqui da cidade, resolveu preparar expedição ao Araçatuba, montanha localizada ao sul das serras paranaenses. Na falta de uma pessoa que conhecesse o caminho, me voluntariei para guiar a subida. Marcada a data de saída, nos encontramos na sede do clube. Era sábado, um dia bonitão, a coisa prometia que ia ser boa. Cheguei com minha mochila cargueira, mais um pote com bolo de chocolate na mão, e encontrei os camaradas animadinhos. Como que próximo do almoço, me servi do bolo, e sendo educado, ofereci aos demais. Lembro-me de pelo menos três pessoas aceitando a oferta. Um deles, um piá que eu não conhecia, que chamarei simplesmente de Tal.</p>
<p>Entramos em cinco num carro verde. Tocamos sentido Matulão, pela BR 376, rumo ao Araçatuba. Eu no fundo, lado direito da janela, o Tal ao meu lado, espremido no meio. A alegria da juventude, o vento no rosto, o olhar pescando as novidades e realmente fazia um belo começo de tarde. Rolava uma papinho furado entre as pessoas, e eu que sou meio tímido, estava na boa, distraído com a paisagem. Então percebi um silêncio demorado, era a falta de assunto. Com esta chance, o Tal alinhou os olhos em minha direção e de forma enigmática disse:</p>
<p>- Aquele bolo.<br />
- O que é que tem?<br />
- O gosto do cheiro da laranja.<br />
- Hein? Era de chocolate&#8230;<br />
- Sabe quando você sente um gosto diferente, não consegue explicar ou não quer falar?<br />
- Não.<br />
- Pois é, eu senti o gosto do cheira da laranja nele, você me entende?</p>
<p>Claro que eu não entendia, apesar do olhar fixo do cidadão. Ele estava cheio dos mistérios, querendo fazer palavra cruzada com as idéias. Esquisito, no mínimo. Eu ignorei o incidente, não conhecia o cara.</p>
<p>A jornada pela estrada continuou, até que decidimos parar num posto de combustíveis. Uns saíram mijar, outros comprar coisinhas na lojinha, o dono do carro enchendo o tanque. O Tal ficou do lado de fora, trocando idéias com um outro elemento que não me recordo quem era, ambos um pouco exaltados. A razão de tanto esperneio era que o Tal tinha, inexplicavelmente, decidido voltar pra casa dali mesmo, assim de repente, abortando a expedição e comprometendo o nosso planejamento. O elemento amigo do Tal dizia:</p>
<p>- Mas Tal, a gente está aqui no meio do nada! Como você vai voltar?<br />
- Dou meu jeito.<br />
- Mas nem tem ônibus, se liga. Vamos pra montanha, lá você há de recuperar seu espírito combalido. Eu farei massagens em suas costas, prepararei sua comida e tudo ficará bem.<br />
- Puta merda, eu já disse que eu não vou!</p>
<p>Aí o Tal ficou nervoso. Tomado por súbito descontrole, ele começou a cantar hinos de difícil significado num tom bem alto, e a tirar a roupa do corpo, ali, no meio do posto. Dois caminhões parados, um frentista, mais o nosso carro. O elemento que estava insistindo para o Tal continuar a viagem, agora insistia para que ele não tirasse a roupa. Mas não adiantou. Cantando num volume irritante, Tal foi tirando peça por peça, até chegar a cueca. Acabou ficando completamente nu, e saiu correndo pelado em direção aos fundos do posto.</p>
<p>E aquela coisa magra, pelada, de pouco pêlo e nenhum juízo, foi-se embora. Assim como qualquer tentativa de continuar viagem até o Araçatuba. Com o passeio estragado, me restou comer o que sobrou do bolo, mais um patê com farofa que havia trazido num potinho bege da minha mãe.</p>
<p>Ficamos sabendo depois, que o Tal foi encontrado numa comunidade qualquer da região e encaminhado ao hospital, já no fim da tarde, quase escurecendo. Por pouco não levou bala no couro ao circundar as casas, pelas moitas, em atitude muito suspeita. Afinal, ele ainda era um cara pelado, vagando nos jardins ou não.</p>
<p>A frase misteriosa, &#8220;o gosto do cheiro da laranja&#8221;, entendi depois, significou por a culpa pela sua loucura em meu bolo. Mas de qualquer forma, o Araçatuba é uma montanha muito bacana, que não frequento regularmente.</p>
<div id="attachment_127" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/anhangava-04.jpg" alt="Cume do Anhangava." title="anhangava-04" width="408" height="308" class="size-full wp-image-127" /><p class="wp-caption-text">A loucura que me faz pular atrás das nuvens.</p></div>


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		<title>O Papa Bento XVI sobe o Morro do Diabo</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Mar 2009 03:25:55 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O Papa Bento XVI esteve em Curitiba na semana do dia 1º de maio. Ele subiu, junto com toda a comunidade cadastrada e motivada de Quatro Barras, as 3 horas de trilha rumo ao Morro Samambaia, a fim de realizar [...]

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			<content:encoded><![CDATA[<p>O Papa Bento XVI esteve em Curitiba na semana do dia 1º de maio. Ele subiu, junto com toda a comunidade cadastrada e motivada de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Quatro_Barras">Quatro Barras</a>, as 3 horas de trilha rumo ao Morro Samambaia, a fim de realizar a tradicional Missa do Trabalhador, que acontece todo santo ano na <a href="http://amontanha.com.br/posts/tag/baitaca/">Serra da Baitaca</a>. Antes, porém, o Papa recebeu instruções de conduta consciente em ambientes naturais, porque até ele pode causar impacto ambiental. Ainda mais na Serra do Mar, que é lugar frágil e muito pressionado pela crescente horda furiosa que pisa a sua terra.</p>
<p>Do cume do morro, após a missa, observando toda a Serra do Mar aberta, as várias montanhas verdes no horizonte e aquele céu azul, o Papa Bento XVI flagrou o Anhangava ali do ladinho. Pensou e concluiu que aquela era uma montanha bacana, com suas pedras coloridas e tudo, a galera escalando e pendurada em cordas. Perguntou a um fulano que o acompanhava: Montanha maneira essa aí, hein? Qual o nome deste belo morrote? E a resposta: Esta interessante elevação chama-se Anhangava, Santidade, que significa, na língua indígena de nossos antepassados, Morro do Diabo!! Ouviu-se um &#8220;putz, falou merda&#8221;, outras pessoas também lamentaram o comentário. O Papa se ligou que algo suspeito estava no ar, mas alguém sem noção reforçou: É isso mesmo, tem o nome do coisa ruim. Mais outro se empolgou, se esforçando para falar em alemão: É Teufel, Papa, Teufel Berg ou Berg von Teufel, sei lá, mal sei falar meu português.</p>
<p>Aí as hóstias caídas no chão, aquele fiscal do <a href="http://www.pr.gov.br/iap/">IAP</a> dizendo que não era para deixar lixo na montanha, e já ninguém cantava mais os hinos. O Papa ficou de cara! Até uma névoa subiu para fechar o visual da rapazida e a expedição estava, definitivamente, acabada. Sabe-se, apenas, que dessa data em diante, o Morro do Anhangava passou a ser chamado de Morro do Bento. E que a onda de mudanças dos nomes malignos se alastrou até o outro extremo do Paraná, pois a Garganta do Diabo, na foz do rio Iguaçu, agora é Trombeta do Arco-Íris.</p>
<p>Enquanto isso, ali próximo, no Itupava, era promovida uma caminhada eco-alucinógena, cujo título atendia por &#8220;Descendo o Itubala no ritmo do docepava&#8221;.</p>
<p>-x-x-x-</p>
<p>Publicado originalmente em 10/05/07, por ocasião da visita do Papa ao Brasil. Ligeiramente modificado de acordo com as novas manias do autor.</p>
<div id="attachment_98" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/anhangava-01.jpg" alt="Anhangava visto do Morro do Samambaia. " title="anhangava-01" width="408" height="272" class="size-full wp-image-98" /><p class="wp-caption-text">Elemento fotografa o pôr do sol. Atrás o Anhangava. </p></div>
<div id="attachment_99" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/anhangava-02.jpg" alt="Anhangava visto do Morro do Samambaia. " title="anhangava-02" width="408" height="272" class="size-full wp-image-99" /><p class="wp-caption-text">Elemento toma água no cume do Morro Samambaia. Atrás o Anhangava. </p></div>
<div id="attachment_100" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/anhangava-03.jpg" alt="Escaladores no Morro do Anhangava" title="anhangava-03" width="408" height="272" class="size-full wp-image-100" /><p class="wp-caption-text">Elementos escalando no Morro do Anhangava</p></div>


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		<title>Bunda de montanhista cansado não tem dono</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Feb 2009 20:01:39 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Volto da montanha quebrado, muito cansado, sem forças até para dormir. Quase toda energia lá, na Serra do Mar. E somente quarta-feira ainda. Dia seguinte muito cedo, tipo 6h30, saio cruzando as avenidas enevoadas de Curitiba para catar um dos meus irmãos na rodoviária, que estava de volta a cidade após vários dias. Pego meu irmão, coloco as malas no carro e vamos para sua casa. De lá, trato de ir trabalhar. E isso tem nada de figurado; trabalhar é trabalhar, mesmo. Você é pago pra resolver, diz meu chefe, dê o seu jeito, continua ele. Se fosse fácil, qualquer um faria, argumento eu.</p>
<p>Cheguei cedo, saí idem, isso é um consolo. Volto pra casa, tenho que terminar meus estudos para a prova da noite. Toca o telefone, é o Preto me insultando, diz que estudar é para os fracos, ele gosta de falar essas coisas. Marcamos de nos encontrar a noite no bar. Pego o rumo da escola, meu sovaco é puro suor. Faço a tal prova, ao escrever os dedos da mão me doem, tamanho o meu capricho e a falta de prática. Eu não quero que a professora se esforce para decifrar meus hieróglifos.</p>
<p>Escondido, depois da prova, passo na Baixada. Quero espiar <a href="http://furacao.com/materia.php?cod=28452">o primeiro jogo do Furacão</a> em casa neste ano. Dou sorte e vejo um dos vários gols da partida. Animadinho, saio do estádio e vou em direção ao bar. Sinto falta do meu comparsa Magreza, companheiro em <a href="http://amontanha.com.br/posts/fumando-uma-aranha/">degustar aranhas</a>, que não aparece. Por sinal, nenhum dos camaradas dá as caras no bar, e eu esperando o Preto. Lá pelas tantas, chega ele. Um cerveja, dois copos. Outras na seqüência. Esperávamos pelo nosso amigo Bolinha, que estava na maternidade duas quadras dali, vendo o filho nascer. E nada. No telefone, depois de horas, Bolinha anuncia chegada do herdeiro, mas vai deixar para entregar os charutos em outra oportunidade. No fim, ficamos apenas nós dois no bar. Última cerveja e direto pra casa.</p>
<p>De volta ao lar, a patroa me espera cheirosa. Como um selvagem a agarro, e vamos pra cama. Do jeito que caímos, fizemos. Minha última gota de energia se esvai pelo pinto. Eu não tinha mais força e também não aceitaria dinheiro algum pra me mover daquele lençol quentinho. Adormeço de meia, roupa e tudo, atravessado errado na cama. Eu já era, a prova estava no meu corpo inerte.</p>
<p>Algum tempo depois a delegada se apruma, toma seu banho e decide reivindicar um pedaço do território em nosso leito matrimonial. E eu lá, enviesado. Quem diz que ergui o olho? Então ela luta para me endireitar na cama, uma vez que eram nulas as chances de eu me levantar para escovar os dentes, pelo menos isso. Nesse ínterim, no arrasta pra lá move pra cá, minha cueca começa a correr perna abaixo, deixando minha bunda totalmente a mostra e desprevenida. Um prato cheio para qualquer maníaco. Mas o interessante foi que na nádega esquerda da minha bunda, esquerda de quem olha, havia uma mega espinha, uma obra prima da natureza, cheia de pus, super desenvolvida, quase beirando a um furúnculo. Era uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakatoa">Cracatoa</a> amarela e gosmenta.</p>
<p>A mim é um mistério porque as mulheres gostam de espremer essas coisas. Deve ser de um prazer tremendo. Então ela passa a se equilibrar nas minhas coxas e a espremer a carne do meu traseiro, a fim de fazer a aberração da natureza explodir num mar de líquido pegajoso. Minha mulher deve ter passado vários minutos ali, feliz pela dádiva e impressionada pela minha incapacidade em reagir ao ataque pela retaguarda. Eu não vi, nem nada senti.</p>
<p>De manhã não tão cedo quanto dia anterior, acordo e vou ao banheiro. A mochila cargueira ainda estava ao lado da porta, o par de botas com as meias usadas. Despreocupado, abaixo a cueca para sentar no vaso e então me horrorizo ao encontrar tudo cheio de sangue. Um absurdo, eu parecia que tinha menstruado pelo cu. Pela montanha que eu tanto amo, me preocupei com o que poderia ter acontecido depois de ter perdido o juízo e a consciência. E mais, quem teria feito imensa atrocidade comigo? Com medo, avalio as partes, tudo aparentemente normal. Fingindo ser coisa corriqueira, vou a cozinha tomar meu desjejum. Pois é, eu falo um pouco baixo, tiraram minha virgindade ontem a noite. E aí fico sabendo do ocorrido, o que me devolve a paz que tinha deixado no banheiro.</p>
<p>Sábado, indo escalar com os camaradas, conto a seqüência de fatos para um outro irmão meu, o caçula, que acha graça na história.</p>
<div id="attachment_84" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/pico-parana-cerro-verde.jpg" alt="Pico Paraná visto do Cerro Verde, Serra do Ibitiraquire." title="pico-parana-cerro-verde" width="408" height="308" class="size-full wp-image-84" /><p class="wp-caption-text">Pico Paraná visto do Cerro Verde, Serra do Ibitiraquire.</p></div>


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		<title>Fumando uma aranha</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Feb 2009 02:50:28 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Chovia e fazia frio em Curitiba, o que você deve saber que é bem comum. De certo situação equivalente também no litoral. Olhando da cidade, os relâmpagos lá do mar clareavam o céu e revelavam a silhueta das montanhas da serra. A noite avançando, e eu indeciso se vestia a mochila já pronta e corria pro monte, qualquer um deles, ou se então ficava em casa. Na janela eu fumava um cigarro e pensava na minha situação, respingos minúsculos de chuva marcando o azulejo do parapeito, às vezes molhando meu braço. Aí que uma aranha vindo da parede esquerda, resolve cruzar meu caminho rumo à parede direita. Quando a percebi, estava bem abaixo do meu queixo, desviando os obstáculos de água. Um instinto cruel me fez, num reflexo, cravar a brasa do meu cigarro na criatura, bem no meio daquela carne colorida e peluda. Ouvi um barulho de bife em frigideira, e da aranha que se acoplou ao cigarro, sobraram apenas as perninhas, o corpo queimando e fazendo fumaça. Se eu me esforçasse, conseguiria ouvir a aranha gritando. Um trago profundo, a luz brilhante da brasa, as perninhas se mexendo, o fritar do tabaco misturado com o bicho. Senti um gosto amargo, tive medo de que a aranha liberasse substâncias tóxicas que abalariam meu juízo. Um tremor varreu meu corpo, começou pela nuca, acabou no rabo, o veneno já estava fazendo efeito. Caiu novo relâmpago, mas peguei minha mochila, outro relâmpago e fui pra serra do mar. A decisão que me faltava. Foi aí que andei por dois dias inteiros, entrei no Itapiroca e sai no Ciririca, suei bicas e rios, e nunca mais pus um cigarro de aranha na boca. Agora estou feliz em casa, só com cigarrinho de artista.</p>
<div id="attachment_67" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/aranha-mae-catira.jpg" alt="Aranha encontrada no Mãe Catira." title="aranha-mae-catira" width="408" height="308" class="size-full wp-image-67" /><p class="wp-caption-text">Aranha encontrada no Mãe Catira.</p></div>


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		<title>A mariposa de um Natal na montanha</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Feb 2009 01:16:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Era uma família de montanhistas. O pai, velho ancião e líder vitalício das expedições, sempre comprometera as viagens da família, pois seus valores antigos não combinavam com os tempos modernos, onde os filhos saem da mesa antes dos de mais [...]

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma família de montanhistas. O pai, velho ancião e líder vitalício das expedições, sempre comprometera as viagens da família, pois seus valores antigos não combinavam com os tempos modernos, onde os filhos saem da mesa antes dos de mais idade acabarem a refeição. O velho nunca aceitou que os seus filhos escalassem melhor do que ele. Eram três, todos meninos, cada qual herdando sua parcela dos genes montanhistas. A mãe era especialista em fazer comidas elaboradas usando apenas uma panela, em qualquer condição climática, independente de altitude. Como já dito, uma família de montanhistas. Inevitavelmente surgiam conflitos, ora sérios, ora só para não perderem o costume.</p>
<p>Aconteceu que naquele Natal, a família resolveu passar um mês aos pés da montanha, para gozar as férias e comemorar as festas de final de ano. O ápice da viagem seria a escalada improvável de uma montanha altíssima, que até aquela época jamais tinha sido vencida, por mais que tentassem. O dia para tal feito seria naquele em que se comemora o Natal, exatamente no dia 25.</p>
<p>Na noite que antecedia a escalada, a matriarca, sempre cheia de cuidados para com os filhotes e atenta aos humores do seu marido, preparou uma bela ceia na enorme barraca central, que servia de refeitório, sala de estar, cozinha e enfermaria. A mesa era farta, e dentro dos costumes, um fumegante peru assado repousava na bandeja. Não esqueçamos da bebida com leve teor alcoólico cheia de frutas, panetones e outras guloseimas típicas. Havia um cenário perfeito para uma grande celebração. Presentes seriam trocados, abraços seriam dados e os filhos sabiam que nas caixas embrulhadas embaixo da árvore, estavam lanternas muito modernas, fogareiros de bio-combustível e cordas coloridas. Muitos apetrechos que seriam, inclusive, usados na escalada do dia seguinte.</p>
<p>Estava uma noite quente e linda, não tinha lua cheia, mas isso nem era tão importante, porque mesmo no breu profundo era possível perceber a silhueta das montanhas que cercavam o ambiente. Os filhos estavam todos perambulando pelo acampamento, já de banho tomado no rio, o mais novo besuntado de repelente. E assim que um morcego sobrevoou o acampamento, de repente mesmo, os três filhos começaram a ouvir uma gritaria vindo da barraca central. Era mais uma das várias discussões e brigas dos seus pais. De certo o motivo teria sido a implicância permanente do velho, ou as respostas ácidas da mãe. A gritaria seguiu o seu curso, ecoando pelos vales afora, e foi demorando mais do que o normal para terminar. Que merda, pensaram os filhos, eles não dão um tempo nem no Natal. Como não cessasse a confusão, o filho mais velho propôs ao irmão do meio, já com idade suficiente para fazer besteiras, darem um pulo na vila próxima ao acampamento. O mais novo, pequeno ainda, ficou por lá, e não se sabe muito em que pensava no momento.</p>
<p>Foram os dois mais velhos caminhando até a vila, sem propósito maior do que fugir da confusão. Não havia plano algum, apenas a caminhada. Lá chegando, sentaram-se em bancos de um bar já fechado, porque nem os bares ficam abertos em noites de Natal, especialmente em uma vila de montanhistas conservadores. Sentaram, conversaram qualquer coisa e mais nada. Aí surgiu um montanhista nativo, bem pé no chão, de certo também desgarrado do seio familiar. Os três começaram a trocar idéias e se animaram numa conversa fútil, sobre escaladas e montanhas selvagens, sempre embalados pelo bom humor do nativo. Papo firme rolando, quando então, quase um grande tempo depois, o silvícola sacou da sua mochila muito velha um cigarrinho de maconha. É importante lembrar que maconha, naquela época, não era coisa corriqueira como hoje, e por mais avançadinhos que fossem os piás da cidade, não era propósito deles usar substâncias tóxicas em plena véspera de Natal. Mas foda-se, pensaram os nossos jovens, vamos fumar esse bagulho, já que os pais estão pouco se esforçando para proporcionar um Natal bacana, aquela coisa que todo o filho gostaria de ter.</p>
<p>Fumaram tudo, até ficarem os dedos da mão amarelos. Se a conversa já estava em um nível bem simpático, ficou mais ainda. Depois de um tempo, o montanhista nativo alegou qualquer coisa, e disse que precisava tomar o seu rumo, indo embora noite adentro. Aí, solitários ficaram os dois irmãos chapados. Bem, pelo visto não havia muito que fazer mesmo, então resolveram voltar para o acampamento. Mãos nos bolsos, pensamentos perdidos, a luz da lanterna criando sombras de fantasmas na mata. Quando os dois estavam à meia distância do acampamento, uma gritaria muito grande podia ser ouvida vindo da barraca central, mais forte ainda do que quando partiram. Inacreditável, mas os pais, aqueles que deveriam manter a ordem, que deveriam assegurar uma escalada segura, continuavam em pé de guerra. Pelo menos foi isso que eles pensaram.</p>
<p>Mas a situação era por demais absurda, difícil mesmo de acreditar. Quando adentraram no recinto, perceberam em um canto da barraca e muito assustado, o irmão caçula. Em outro compartimento, usado como banheiro, estavam os pais, berrando um com o outro, o velho com a cara muito vermelha. Entenderam a cena em dois toques: uma mariposa havia entrado no ouvido do pai, que desesperado, tinha crises convulsivas toda a vez em que o bicho batia as asas. Impressionante mesmo, mas depois de brigarem, o casal foi dormir, sabe-se lá de que jeito, e por conta do brilho da lanterna, a mariposa foi atraída e resolveu se acomodar no aparelho auditivo do cidadão.</p>
<p>O primogênito, crente que teria o dom e conseguiria manter a calma, tentou fazer uso de uma pinça para auxiliar o seu pai. Mas era muito difícil, o pai não parava quieto, todos gritavam ao mesmo tempo, e a situação era de uma desgraça generalizada. Foi quando o piá se lembrou que estava chapado, e começou a ter um bode frio, que é o nome que se dá para o mal estar causado pela viagem negativa da maconha. Puta merda, o cara estava chapado, o pai estava em vias de enfiar uma faca no ouvido para tirar aquela mariposa, todos suavam bicas, a situação era realmente complicada. O filho mais velho sentiu que iria desmaiar, ou qualquer coisa assim, e desistiu de tentar tirar a mariposa com a pinça. Então assumiu o posto de salvador o irmão do meio, também chapado. Mais hábil que o irmão mais velho, o do meio foi capaz de resolver a questão, conseguindo, após alguns segundos que pareceram horas, capturar a mariposa e libertar o velho do sofrimento. O irmão caçula ficava de lado, vendo tudo com olhos enormes.</p>
<p>E então, a reviravolta mais impressionante da vida daquela família acabava de acontecer, tão surpreendente quanto o próprio espetáculo que proporcionavam. A atitude hostil da mariposa, que já tinha sido esmigalhada pela mão do pai, conseguiu transformar o ambiente de uma forma digna de um milagre. Retirar o bicho do lugar onde ele havia se enfiado, o que também impediu que o velho sofresse um ataque e retalhasse a orelha com uma faca, mudou o cenário. Todos estavam alegres com a conquista, o pai sorria como há tempos não se via, e a mesa, que fora posta para a ceia de Natal, poderia ser usufruída. Estavam, naquele momento e finalmente, comemorando o Natal. Percebam que o bem havia se manifestado como uma mariposa, ajudando a transformar o caos em ordem e alegria. Os presentes foram por fim abertos, os planos revisados, e a grande escalada planejada com esforço haveria de entrar para a história do montanhismo. Uma família unida vence qualquer coisa, até a mais terrível das montanhas. E que dificuldade impediria esses montanhistas, após o Natal da mariposa?</p>
<p>Bem, acontece que chegou o dia seguinte. Pai, mãe e filhos, após acordarem felizes e tomarem um reforçado desjejum, seguiram rumo à parede vertical da montanha, com seus presentes novos e outros equipamentos antigos. Mas numa enfiada por demais exposta, o velho, sempre ele, tropeçou, caiu e levou toda a família para uma grande queda.</p>
<p><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/montanha.jpg" alt="montanha" title="montanha" width="408" height="308" class="aligncenter size-full wp-image-60" /></p>
<p>-x-x-x-</p>
<p>Publicado originalmente em 11/12/07.</p>


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		<title>Montanhas me ouçam</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Feb 2009 00:03:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[conficção]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Tive uma visão. Vai acontecer em uma tarde de calor absurdo, como a de hoje, o último domingo da primavera. O ar parado, e da mesma forma como diz a Bíblia, as pessoas estarão casando e dando-se em casamento. Um dia aparentemente normal, exceto pelo calor. Nuvem no céu, mas nenhum pássaro voando. As veias em minhas mãos estarão saltadas, também engasgado de sede. De repente, um espetacular barulho virá do litoral, bem lá de longe. Coisa de instantes depois, uma enorme onda de água salgada subirá do mar, e destruirá tudo o que estiver no seu caminho, avançando sem considerar obstáculos, rumo ao continente. A violência será enorme, sua força deixará o povo atônito. A grande massa de água ultrapassará a Serra do Mar, e avançará sobre Curitiba e Região Metropolitana. Eu, com minhas veias ainda me incomodando, estarei olhando da janela, do sétimo andar, vendo a onda varrer meu horizonte e destruir as cidades. E vai chegar minha vez. Então, quando finalmente eu sentir a ira da natureza, quando a água atingir meu rosto, receberei o instante derradeiro com um grito. O punho cerrado no ar, o cabelo voando, sem camisa, a boca aberta com todos os dentes a mostra; serei também a fúria enfrentando a destruição final, em uma simples tarde de calor. Sei que gritando, num grande berro, partirei para a morte. Deixarei um amor, e montanhas que nunca subi. Mas quem estiver acampado no Abrigo 02, do Pico Paraná… esse se salvará.</p>
<p>-x-x-x-</p>
<p>Publicado originalmente em 18/12/06.</p>
<div id="attachment_36" class="wp-caption aligncenter" style="width: 418px"><img src="http://amontanha.com.br/admin/imagens/pico-parana-04.jpg" alt="Abrigo 02 do Pico Paraná" title="pico-parana-04" width="408" height="308" class="size-full wp-image-36" /><p class="wp-caption-text">Abrigo 02 do Pico Paraná</p></div>


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