A mariposa de um Natal na montanha
Publicado em 16/02/09 e arquivado sob: conficçãoEra uma família de montanhistas. O pai, velho ancião e líder vitalício das expedições, sempre comprometera as viagens da família, pois seus valores antigos não combinavam com os tempos modernos, onde os filhos saem da mesa antes dos de mais idade acabarem a refeição. O velho nunca aceitou que os seus filhos escalassem melhor do que ele. Eram três, todos meninos, cada qual herdando sua parcela dos genes montanhistas. A mãe era especialista em fazer comidas elaboradas usando apenas uma panela, em qualquer condição climática, independente de altitude. Como já dito, uma família de montanhistas. Inevitavelmente surgiam conflitos, ora sérios, ora só para não perderem o costume.
Aconteceu que naquele Natal, a família resolveu passar um mês aos pés da montanha, para gozar as férias e comemorar as festas de final de ano. O ápice da viagem seria a escalada improvável de uma montanha altíssima, que até aquela época jamais tinha sido vencida, por mais que tentassem. O dia para tal feito seria naquele em que se comemora o Natal, exatamente no dia 25.
Na noite que antecedia a escalada, a matriarca, sempre cheia de cuidados para com os filhotes e atenta aos humores do seu marido, preparou uma bela ceia na enorme barraca central, que servia de refeitório, sala de estar, cozinha e enfermaria. A mesa era farta, e dentro dos costumes, um fumegante peru assado repousava na bandeja. Não esqueçamos da bebida com leve teor alcoólico cheia de frutas, panetones e outras guloseimas típicas. Havia um cenário perfeito para uma grande celebração. Presentes seriam trocados, abraços seriam dados e os filhos sabiam que nas caixas embrulhadas embaixo da árvore, estavam lanternas muito modernas, fogareiros de bio-combustível e cordas coloridas. Muitos apetrechos que seriam, inclusive, usados na escalada do dia seguinte.
Estava uma noite quente e linda, não tinha lua cheia, mas isso nem era tão importante, porque mesmo no breu profundo era possível perceber a silhueta das montanhas que cercavam o ambiente. Os filhos estavam todos perambulando pelo acampamento, já de banho tomado no rio, o mais novo besuntado de repelente. E assim que um morcego sobrevoou o acampamento, de repente mesmo, os três filhos começaram a ouvir uma gritaria vindo da barraca central. Era mais uma das várias discussões e brigas dos seus pais. De certo o motivo teria sido a implicância permanente do velho, ou as respostas ácidas da mãe. A gritaria seguiu o seu curso, ecoando pelos vales afora, e foi demorando mais do que o normal para terminar. Que merda, pensaram os filhos, eles não dão um tempo nem no Natal. Como não cessasse a confusão, o filho mais velho propôs ao irmão do meio, já com idade suficiente para fazer besteiras, darem um pulo na vila próxima ao acampamento. O mais novo, pequeno ainda, ficou por lá, e não se sabe muito em que pensava no momento.
Foram os dois mais velhos caminhando até a vila, sem propósito maior do que fugir da confusão. Não havia plano algum, apenas a caminhada. Lá chegando, sentaram-se em bancos de um bar já fechado, porque nem os bares ficam abertos em noites de Natal, especialmente em uma vila de montanhistas conservadores. Sentaram, conversaram qualquer coisa e mais nada. Aí surgiu um montanhista nativo, bem pé no chão, de certo também desgarrado do seio familiar. Os três começaram a trocar idéias e se animaram numa conversa fútil, sobre escaladas e montanhas selvagens, sempre embalados pelo bom humor do nativo. Papo firme rolando, quando então, quase um grande tempo depois, o silvícola sacou da sua mochila muito velha um cigarrinho de maconha. É importante lembrar que maconha, naquela época, não era coisa corriqueira como hoje, e por mais avançadinhos que fossem os piás da cidade, não era propósito deles usar substâncias tóxicas em plena véspera de Natal. Mas foda-se, pensaram os nossos jovens, vamos fumar esse bagulho, já que os pais estão pouco se esforçando para proporcionar um Natal bacana, aquela coisa que todo o filho gostaria de ter.
Fumaram tudo, até ficarem os dedos da mão amarelos. Se a conversa já estava em um nível bem simpático, ficou mais ainda. Depois de um tempo, o montanhista nativo alegou qualquer coisa, e disse que precisava tomar o seu rumo, indo embora noite adentro. Aí, solitários ficaram os dois irmãos chapados. Bem, pelo visto não havia muito que fazer mesmo, então resolveram voltar para o acampamento. Mãos nos bolsos, pensamentos perdidos, a luz da lanterna criando sombras de fantasmas na mata. Quando os dois estavam à meia distância do acampamento, uma gritaria muito grande podia ser ouvida vindo da barraca central, mais forte ainda do que quando partiram. Inacreditável, mas os pais, aqueles que deveriam manter a ordem, que deveriam assegurar uma escalada segura, continuavam em pé de guerra. Pelo menos foi isso que eles pensaram.
Mas a situação era por demais absurda, difícil mesmo de acreditar. Quando adentraram no recinto, perceberam em um canto da barraca e muito assustado, o irmão caçula. Em outro compartimento, usado como banheiro, estavam os pais, berrando um com o outro, o velho com a cara muito vermelha. Entenderam a cena em dois toques: uma mariposa havia entrado no ouvido do pai, que desesperado, tinha crises convulsivas toda a vez em que o bicho batia as asas. Impressionante mesmo, mas depois de brigarem, o casal foi dormir, sabe-se lá de que jeito, e por conta do brilho da lanterna, a mariposa foi atraída e resolveu se acomodar no aparelho auditivo do cidadão.
O primogênito, crente que teria o dom e conseguiria manter a calma, tentou fazer uso de uma pinça para auxiliar o seu pai. Mas era muito difícil, o pai não parava quieto, todos gritavam ao mesmo tempo, e a situação era de uma desgraça generalizada. Foi quando o piá se lembrou que estava chapado, e começou a ter um bode frio, que é o nome que se dá para o mal estar causado pela viagem negativa da maconha. Puta merda, o cara estava chapado, o pai estava em vias de enfiar uma faca no ouvido para tirar aquela mariposa, todos suavam bicas, a situação era realmente complicada. O filho mais velho sentiu que iria desmaiar, ou qualquer coisa assim, e desistiu de tentar tirar a mariposa com a pinça. Então assumiu o posto de salvador o irmão do meio, também chapado. Mais hábil que o irmão mais velho, o do meio foi capaz de resolver a questão, conseguindo, após alguns segundos que pareceram horas, capturar a mariposa e libertar o velho do sofrimento. O irmão caçula ficava de lado, vendo tudo com olhos enormes.
E então, a reviravolta mais impressionante da vida daquela família acabava de acontecer, tão surpreendente quanto o próprio espetáculo que proporcionavam. A atitude hostil da mariposa, que já tinha sido esmigalhada pela mão do pai, conseguiu transformar o ambiente de uma forma digna de um milagre. Retirar o bicho do lugar onde ele havia se enfiado, o que também impediu que o velho sofresse um ataque e retalhasse a orelha com uma faca, mudou o cenário. Todos estavam alegres com a conquista, o pai sorria como há tempos não se via, e a mesa, que fora posta para a ceia de Natal, poderia ser usufruída. Estavam, naquele momento e finalmente, comemorando o Natal. Percebam que o bem havia se manifestado como uma mariposa, ajudando a transformar o caos em ordem e alegria. Os presentes foram por fim abertos, os planos revisados, e a grande escalada planejada com esforço haveria de entrar para a história do montanhismo. Uma família unida vence qualquer coisa, até a mais terrível das montanhas. E que dificuldade impediria esses montanhistas, após o Natal da mariposa?
Bem, acontece que chegou o dia seguinte. Pai, mãe e filhos, após acordarem felizes e tomarem um reforçado desjejum, seguiram rumo à parede vertical da montanha, com seus presentes novos e outros equipamentos antigos. Mas numa enfiada por demais exposta, o velho, sempre ele, tropeçou, caiu e levou toda a família para uma grande queda.

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Publicado originalmente em 11/12/07.
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Tags: contos, escalada, montanhismo
June 24th, 2009 at 11:51 pm
[...] época na família em que dinheiro para as férias escolares não era problema. Uma vez passamos as festas de final de ano nas montanhas da serra paranaense. Noutra, nas montanhas da vizinha Santa Catarina. Quando eu tinha 12 anos, ficamos o recesso de [...]