Acidente no Morro do Canal

Sabe quando você se arrepende de não ter colocado em sua mochila o kit de primeiros socorros e o cabo de vida? E por outro lado, sabe quando fica feliz em ter feito cursos de busca e resgate em áreas remotas, de ter instrução em primeiros socorros? Pois então, foi nesta toada que passei o dia de sábado no Morro no Canal.

Com os meus camaradas Josman e Alisson, saí de manhã para mais uma sessão de escaladas e afins. O destino, e quem acompanha o blog já tá ligado, foi o Morro do Canal, meu local predileto de treinos. O dia foi bem bacana. Descobrimos uma nova via ao lado da Pirilampo, que ainda nem tentamos, e constatamos que acrescentaram um grampo naquela via cujo nome não sei, mas que fica quase ao lado das escadas que levam ao cume. Durante a subida nos encontramos com o professor Fill, confiante e valente subindo o morro. O Josman continua escalando pra carajo, e eu e o Alisson vamos seguindo pra ficar tão bom quanto ele. O dia estava lindo, com um céuzão azul, muito sol, e quase nada de vento ou frio. E como eu queria ir no jogo do Furacão, que seria às 21h, concordamos em descer antes de anoitecer, para que eu pudesse chegar a tempo no estádio.

Então, depois de várias vias escaladas e de termos curtido bastante a montanha, tocamos pra baixo. Enquanto descíamos, fomos passando por algumas pessoas, até que alcancei aquele ponto onde existem 3 pontes de madeira sobre as grotas. Lá, um pai muito sério aguardava a chegada de alguém. Quando apareci, me encarou e perguntou: você tem uma corda aí? Na hora pensei que fosse brincadeira, que o cara queria corda pra continuar subindo até o cume, o que com certeza não seria o caso, mas respondi na lata que não, não tinha corda nenhuma comigo. Então ele falou alguma coisa assim: meu filho caiu num buraco, pode estar ferido, precisamos de ajuda.

O negócio era sério, portanto. O Alisson e o Josman chegaram em seguida, e imediatamente nos equipamos pra fazer o resgate. O caso ali era simples de entender. Apesar do clima seco de inverno, no interior da floresta a umidade ainda reina absoluta. E madeira úmida é especialmente lisa. O menino, ao passar pela ponte, escorregou e caiu grota abaixo, coisa de 15m pelo menos. De onde estávamos, não era possível avistá-lo.

Armamos a ancoragem, mesmo não havendo equipamento específico para aquela operação. Peguei a ponta da corda e desci até onde estava a vítima. O piá se chamava André. De fato, dali ele não era capaz de sair sozinho, em vista da inclinação do terreno. O buraco era úmido, feio e fedido. Por sorte ele parou num pequeno platô. Se tivesse caído mais fundo, teríamos um problema bem maior pra resolver. Felizmente o André estava consciente, com apenas algumas escoriações no braço, sem fratura aparente. Falava e se movimentava normalmente, apesar de reclamar de dores nas costas e nos braços. O que fazer? Içar a vítima até a luz do dia. Sem entrar em pormenores, o pessoal da superfície armou as engrenagens, enquanto eu prendia a mim e a vítima na outra ponta. Num belo trabalho de equipe, fomos subindo pedaço a pedaço da grota, até que foi possível avistar as pessoas em cima. Mais um tanto, e finalmente estávamos nós dois novamente em terreno seguro. Alívio foi o que todos sentiram.

Estando todos a salvo, o pai do menino, que se chamava Paulo, nos perguntou como poderia retribuir pela ajuda, a qual respondemos que nos contentávamos com algumas cervejas lá na base. Com os equipamentos novamente na mochila, continuamos nosso caminho. Descemos todos juntos, de maneira descontraída e comemorando a vida, apreciando as belas cores do crepúsculo. Já escuro, alcançamos o final do percurso, e aí pudemos comer, beber e trocar ideias.

Apesar do susto, foi muita sorte o André não ter se ferido mais gravemente. Se o incidente tivesse atingido maiores proporções, seria necessário acionar os bombeiros, providenciar macas e toda aquela parafernália, sem contar que o resgate levaria horas para ser concluído. Pra mim ficou a certeza de que vale a pena investir em treinamento de primeiros socorros, busca e resgate em áreas remotas. E que um dia na montanha sempre pode reservar surpresas, de maneira que me rendo: jamais deixarei meu kit em casa novamente :-)

Detalhe: O Alisson em questão, meu camarada, foi o mesmo que quebrou o cotovelo em 2009 no Marumbi, e que na ocasião foi socorrido por mim e pelo Natan. Mais uma dúzia de eventos como esse e talvez eu seja aceito no Cosmo… hahaha…

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8 Comments

  • é Vini as montanhas sempre nos reservam surpresas as vezes as mais inesperadas,

    que bom que não aconteceu nada mais sério com o André, e vocês estavam lá para um rápido resgate sem mais demoras, parabéns,

    e ressalto, ter o curso de resgate e primeiros socorros é sempre bom, saber como agir, como ajudar, pode ser decisivo em muitas situações,

  • Legal Vinicius. Tá aí a importancia em fazer um curso de técnicas de resgate. O guri teve sorte que vc’s estavam na montanha!

  • Resgate rápido e bem sucedido, parabéns para todo o time. E isso serve para mostrar que nem com todas as escadinhas, correntes e pontes o local será 100% seguro.

    JOPZ

  • Alisson Cotrim Wosniak

    Vini, aproveito o espaço do seu blog.
    Aos que resolverem ir para amontanha, atentem também para o seu calçado. Acho que se estivesse de bota, “poderia” ter sido evitado o escorregão e consequentemente a queda.
    Sem exagero, o guri escapou por muito pouco. Uma correção. Após lavar a corda, percebi que foram utilizados mais de 15 metros.

    Abs!

  • Boa Garotinho,

    Realmente foi uma intervenção providencial.
    O André teve vários golpes de sorte. Sorte de não se machucar sério, da gente estar passando por ali logo depois e de você ter organizado um resgate seguro e rápido.
    Parabéns pelo trabalho de todo mundo que ajudou.

    Não faço idéia do que você precisaria para ser aceito no cosmo, mas sei da sua preocupação com segurança na montanha. E isso independentemente de chancela de alguém, já é bastante importante.

    Até o futuro.

  • Boa… e fica a dica: Tenis pra montanha se chama Bota…

  • Valeu piazada! Espero que o André esteja bem agora. E vamos sempre lembrar de levar nossos kits de PS pra montanha. Grande abraço a todos!

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