Beleza e morte no Pico Paraná

Os perigos da vida estão presentes em todos os momentos. Recordar a morte, um fato, a todo instante. Ser montanhista, conhecido no local como Marumbinista, era palmilhar a Serra do Mar em todos os sentidos, com todos os seus perigos. A estrada de ferro Curitiba/Paranaguá era o caminho corriqueiro. Escalar o Pico Paraná na década de cinqüenta, uma temeridade. Neste caminho não havia estrada de ferro, tinha que viajar pelas estradas de macadame para São Paulo, e no quilômetro 47, pegar um ramal de terra, e que andando 7 quilômetros ia ao sitio de um caboclo chamado Belizário. Não havia nada senão matas nativas.

Era nosso guia o experiente Rudolf Stamm, que galgou o cimo pela primeira vez em 13/07/1941 e festejava o seu feito de anos atrás. A casa do Belizário de madeira e fixada na encosta de um morro, a região toda muito acidentada. Tinha as características próprias. Junto ao chão e sob o soalho da casa, havia um espaço que servia de depósito e galinheiro. Ao lado, uma escada longa seguindo a inclinação do terreno, que levava para a entrada da casa. Logo estávamos a conversar, o tempo não estava firme, embora já fizesse uma semana que não chovia. A esposa do Belizário nos informou que estava providenciando o jantar. Ouviu-se um grande alarido abaixo da casa, no galinheiro, e logo um belo frango se calou para sempre. A água já estava fervendo para depenar o galinho.

O Stamm informou que estava subindo o Pico Paraná pela enésima vez, esta seria uma das raras vezes que uma mulher ia tentar, a esposa do Gavião (Waldemar Buecker). Para o Vitamina seria uma das primeiras vezes e a minha a segunda. Descemos a escada e fomos andar nos arredores, toda área era rodeada por pequenos morros que impedia de ver o horizonte longínquo e nem sabíamos de que lado estava o pico. Sentados à mesa comprida da cozinha, no meio o frango cozido soltava ao ar o gostoso aroma, o arroz branco, e numa tigela o feijão preto escaldante. No meu íntimo pensava; “que gostosura…”. A sobremesa era banana maçã sem par na região, quem passa por lá sabe.

Stamm sugeriu o recolhimento, pois teríamos que acordar muito cedo. O soalho da sala estava impecavelmente limpo, colocamos a mesa no meio, reservamos um lado para o casal Buecker e colocamos os nossos sacos de dormir no outro. Uma vela foi acesa, pois já se fazia noite. Tínhamos que economizar as pilhas das lanternas. Uma aragem fresca anunciava algum frio. Enfiados nos sacos de dormir, ouvimos do Gavião a história de sua queda da Taça em Vila Velha. Nunca tábuas de soalhos nos pareceram tão macias, nos levando para um sono profundo.

Cinco horas da manhã já estávamos de pé, arrumando as tralhas. Despedimos-nos dos nossos anfitriões e fomos em busca da picada para o Pico Paraná. Atravessamos uma roça de milho e entramos no mato. O velho Stamm sacudindo o facão na frente, limpava a picada. Feliz da vida, como sempre, mantinha um ritmo agradável para o grupo. O primeiro objetivo era chegar na mina de água e encher os cantis. Agora era para valer, subir e subir, alcançar o topo, chegar ao cume. Mas onde estava ele? Na frente?… Só um morro e acabava logo ali, chegava no horizonte, mais uma descida e um novo morro, outro e outro, e muitos outros. Passava o tempo. As horas chegando ao meio do dia. Parada para o almoço e nada de aparecer o objetivo. Pão com mortadela e água. A vegetação mudava pouco, antes mais fechada que ia raleando. Nisso um aviso do Stamm:
- Preparem-se, pois na frente está o último antes da montanha, vem o Caratuva, de lá vamos ver o Paraná.

Quatro da tarde, as pernas pedindo descanso, os últimos trechos eram muito íngremes e era necessário colocar os pés em aberturas feitas pelo guia, segurando em tufos de capim. Agora podíamos ver o pico e o caminho até ele pelo espigão. O cansaço das pernas sumiu como um encanto. Lentamente descemos o Caratuva e iniciamos as últimas elevações.

Só granito com fendas curtas, que exigiam um esforço concentrado, tirava gemidos dos extenuados montanhistas. Cada elevação sucedia uma próxima. Eram mais difíceis. As rochas expunham suas arestas cortantes.

Finalmente o cimo. Viva! Estávamos no ponto mais alto do Paraná. Olhando para o leste até bem longe, centenas de elevações como de fossem meias-laranjas, até fugir no horizonte. Ao sul o cinturão verde até alcançar a baía de Antonina. No oeste despencavam rochas graníticas maciças quase do tamanho da que estávamos e ao longe, atrás de outras montanhas, o conjunto Marumbi. Ao norte, no planalto, já se fazia tempo de ver as luzes de Curitiba a serem acesas, e nós nos apressarmos a colher os penachos de caratuvas para forrar o chão e montar as barracas.

A noite vinha célere e junto vinham os zumbidos do vento gelado. Logo dentro da barraca, estávamos a esquentar a janta, cansados mas felizes. O Gavião foi se esquentar na mulher, pois ela estava super exausta. Uma chuva fina nos manteve na barraca e o chimarrão quente nos mantinha animados. O dia amanheceu entre as nuvens, a neblina densa nos rodeava, aproveitamos para descansar e relaxar.

Um fato a marcar é o vento, seu zumbido a noite toda nas cordas que fixavam a barraca. A nevoa cercou o cume. O dia monótono passou e a tarde o Rudolf não agüentou, pediu um pouco de álcool ao Gavião, leite condensado de mim, colocou tudo numa caneca com um pouco de água e bebeu lentamente e logo dormiu feliz.

Estar nas alturas era coisa de aviador, no solo firme só montanhistas.

Sentado de costas numa rocha para se proteger do vento, entre as nuvens, a pergunta: “Será que o tempo vai abrir?”. Estando tão perto do céu, vêm bons pensamentos. Se o tempo abrisse, o azul do céu nos deixaria alegres e poderíamos ver o mundo entre as nuvens. No terceiro dia, como o tempo não apresentava sinais de melhorar, resolvemos descer. As nuvens mais densas e aparecimento do calor. Descer, descer e descer… Agarrando os tufos e olhando para baixo, pelo menos seis metros até uma nova plataforma. Arrepio na coluna, a calma necessária, a presença do espírito impulsionada as pernas.

Parece infindável, você chega a não acreditar que subiu tudo aquilo. É um subir e descer sem fim. Chegando ao local da água, o merecido descanso. O rumo agora é a baía de Antonina, iríamos chegar em áreas construídas pelo Governo Lupion, de barragens para segurar as águas das chuvas, para aproveitar e fazer eletricidade. Plano que não deu certo. Demorou, mas lá chegamos. Descemos até o local do acampamento. Uma nova surpresa; a presença, ao lado da estrada, de dois corpos em posição esdrúxula. Tinham sido recolhidos do mato como morreram, trazidos para necropsia. O médico vinha de Curitiba. Naquele dia estava lá o Dr. Nereu Affonso da Rocha Peplov, que nos explicava a posição dos defuntos: – Se enrijeceram como caíram, daí estarem nessas posições como se engatinhassem.

Nunca tínhamos visto tal cena, o que nos deixou perplexos. Na manhã seguimos, chegamos à margem da baía de Antonina, onde nos aguardava uma canoa com dois remadores. Sentados no fundo do bote, olhávamos com admiração a montanha que havíamos vencido.

Seguindo embalado pelas ondas da baía, rumo ao mar, já se avistava Paranaguá. De lá, por via férrea, chegaríamos de volta a Curitiba. Falamos da macabra morte que passou, deixando os corpos rígidos pela estupidez do homem e pela eterna água ardente.

Chegamos perto do céu, antes.

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Relato inédito de uma expedição ao Pico Paraná, realizada em alguma data entre os anos de 1948 e 1950. Foi escrito e disponibilizado pelo marumbinista Max Nelson Podleskis, que hoje vive tranquilamente em Londrina, interior do Paraná.

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Publicando originalmente em 22/11/07.

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3 Comments

  • Ola amigo! Nao sou de ficar fazendo comentario, mas eu queria parabeniza-lo pelo otimo site que voce tem! Continue com esse otimo trabalho!

  • o que dizer de um belo relato desse, bem poderia diser que faltou somente a “polenta” pra comer com aquele frango e com o arroz branco.
    rsrsrsrsrsrsrsrs, bela historia. da ate pra dizer q nós og subimos na “mamata”.

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