De como me tornei um montanhista vingativo
Publicado em 24/06/09 e arquivado sob: conficçãoHouve época na família em que dinheiro para as férias escolares não era problema. Uma vez passamos as festas de final de ano nas montanhas da serra paranaense. Noutra, nas montanhas da vizinha Santa Catarina. Quando eu tinha 12 anos, ficamos o recesso de inverno inteiro no Complexo da Pedra do Baú, lá em São Bento do Sapucaí, estado de São Paulo, bem próximo à divisa com Minas Gerais. Nesta vez foi conosco o meu primo Robertinho, de 14 anos, que era do interior do Paraná e tinha vindo a Curitiba justamente para fazer esta viagem.
Gostava muito deste meu primo. Sempre que estávamos reunidos na montanha fazíamos coisas notáveis, subíamos cumes que apenas os adultos subiam, encadenávamos vias cabulosas, uma verdadeira maravilha. Portanto, sob o ponto de vista de quem é um montanhista juvenil, a situação estava mais do que sob controle. Éramos duas crianças felizes brincando na montanha, esse é o ponto. E nesta viagem mantivemos a escrita. Até que, de repente, recebemos visitas. Eram dois outros primos distantes, de Porto Alegre. Eles ficaram sabendo que a família toda estava no Baú, por isso resolveram aproveitar a oportunidade da nossa companhia. Foi a partir da chegada desses primos que meus problemas começaram a aparecer.
Juca e Joca nasceram gêmeos, 15 anos, possuíam bigodinho adolescente na cara, escalavam melhor que eu. Dávamos-nos bem e tudo, mas eles tinham mais afinidade com o Robertinho, o meu primo do interior. E pelo fato de os três serem mais velhos, também podiam sair à noite para pegar as menininhas, coisa que eu não fazia por ainda ser criança, apesar de já estar me acabando no sexo solitário durante os banhos. O Robertinho, com aquela sua espontaneidade de piá do sertão paranaense, foi pouco a pouco me abandonando, só indo pra montanha na companhia do Juca e do Joca.
De uma hora pra outra passei a me ver muito triste, pois não tinha mais com quem brincar. Eles saíam escondidos, evitavam minha presença. Até para comprar pão na padaria da esquina davam um jeito de ir sem mim. Fiquei absolutamente solitário, batendo bola na parede, e a tristeza reinando soberana como nuvem de tempestade pelas montanhas da minha mente.
Mas Juca e Joca, assim como vieram, se foram. Um dia precisaram voltar pra casa, aí que Robertinho voltou a ter apenas a minha pessoa como parceira de empreitada. Numa tarde de sol e céu azul, enquanto eu brincava com os meus bonequinhos do Comandos em Ação, ele todo faceiro, cheio de equipamentos coloridos na mochila, chegou até mim e cantou:
- Escute, não estás a fim de dar uma bela pernada agora? A gente sobe até o Bauzinho e faz aquele lance lá. Que tal?
Eu fiquei super feliz! Um convite como aquele bastava para que me largasse na estrada novamente e esquecesse todas as mágoas que abundavam em meu coração. Corri para o quarto, peguei o equipamento que estava jogado num canto e comecei a ajeitar a mochila. Depois segui até a cozinha, completei uma garrafinha com um tanto de suco gelado, e fui comunicar os meus planos à primeira mulher a mandar na minha vida:
- Ó, mãe, to indo com o Robertinho lá pra cima. Vamos subir aquela parada que eu te falei outro dia e coisa assim. Ta ligada? Volto ao entardecer. Não se preocupe com o jantar que depois faço um miojo. Fique susse, pode crer.
Eu, com 12 anos, já era desta maneira, todo resolvido e independente, falava algumas gírias aprendida com os piás da rua. Mamãe, que desde o começo percebera que o Robertinho havia trocado a minha companhia pela do Juca e Joca, esperou que eu terminasse meu empolgado palavreado, olhou bem nos meus olhos e disse com ar muito sério:
- Não, você não vai à porra de lugar algum. Ao inferno com o Bauzinho. E avise aquele veadinho do Roberto que você tem compromisso pra hoje a tarde. Agora que ele está sozinho, quer ir pra montanha contigo? Mas nem fodendo! Onde já se viu? Depois eu vou contigo e a gente faz o circuito todo.
Voltei para o quarto bem aborrecido, e não lembro o que o Robertinho fez diante da impossibilidade de acompanhá-lo montanha acima. Só sei que apenas anos depois consegui entender o significado daquele ato da senhora minha mãe: Ensinar o que era vingança.

No cume da Ana Chata, com a Pedra do Baú ao fundo.
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Tags: contos, escalada, montanhismo, pedra do baú
June 25th, 2009 at 10:43 am
Tua mãe é muito massa!!!
July 25th, 2009 at 11:50 pm
Muito bom parabens para sua mãe agiu certissimo …..
July 26th, 2009 at 11:13 pm
Minha análise de pai foi diferente, Piá.
Que pai deixaria o filho ir pra montanha com um sujeito “traíra” desses?
E se desse alguma merda, como confiar que o Cuabertinho fosse agir de acordo e ser Companheiro e te trazer de volta?
August 11th, 2009 at 10:31 pm
Quanto talento você tem ao fazer um relato – ou conto!
O mais interessante é que reconheço muitas semelhanças nesta história…. rsrs