Expedição ao Monte Roraima

Relato de minha expedição ao Monte Roraima, oitava maior montanha do Brasil com 2734,06m, na fronteira com a Venezuela, realizada em solitário no ano 2008, como parte do projeto Montanhas do Brasil.

Atualização 04/07/2011: algumas pessoas perguntaram a razão de eu estar tão despreparado pra subir a montanha, já que levava basicamente apenas miojo. Explico: é que eu já estava na estrada a mais de 20 dias, vindo de outra jornada pela Amazônia, no caso o Pico da Neblina e o Pico 31 de Março. A principal da comida já tinha acabado, assim como a grana. Fiz o Roraima porque este era o plano e eu não perderia a chance. Além do mais, naquela época eu estava muito bem preparado, tanto que fui e voltei de boa. Segue o relato.

-x-x-

Saí de Manaus-AM e cheguei em Boa Vista-RR dia 10 de setembro, quarta-feira, e fui direto ao Hotel Ferrari. A diária custou R$75 no cartão, e a qualidade do quarto era muito superior aos que eu tinha encontrado antes, como em São Gabriel da Cachoeira-AM. O desjejum era servido às 6h30, então marquei com um taxista de lotação para me pegar às 7h do dia seguinte.

Dia 11, no horário combinado, o rapaz me pegou e levou ao ponto de lotação que vai a Santa Elena de Uairén, na Venezuela. Lá nós esperamos um tanto por outras pessoas, e depois que mais alguém apareceu, seguimos viagem. Percorremos aproximadamente 250km em 2h30. Custou R$30,00 e o cara me deixou no hotel que eu pedi. A passagem pela fronteira foi tranqüila também. Em Santa Elena me hospedei no Hotel Michele, diária de B$40 (Bolívares Forte), sem café ou televisão, só chuveiro quente e baratas no quarto. Mas a dona do hotel era bem simpática e anti-Chaves. Na rua, a troca de moeda foi 2 por 1, ou seja, R$1 igual a B$2. Deixei a mochila no quarto e sai atrás de meios para ir ao Monte Roraima. Tudo muito voltado ao turista gringo com dinheiro, tanto que os índios mal falavam espanhol, mas eram fluentes no inglês. Ninguém quis me dar carona, e ao perceberem que eu era turista, ou melhor, que tinha cara de turista, queriam me cobrar a partir de B$300 o transporte só ida até a aldeia e outros B$100 o dia do guia. Segundo consta, não pode entrar no parque do Monte Roraima sem guia. Nas agências o preço era de B$1050 o pacote com tudo incluso e que durava 6 dias. Sei que depois de muito procurar, quase no desespero, encontrei uma agência que me incluiu num grupo e também aceitou me cobrar menos. Então ao invés de pagar B$1050 por tudo, paguei B$350 apenas pelo transporte ida e volta, além do guia. Esta agência acredita em disco voador e se chama Mystic Tour. Todo o resto foi minha conta. Comprei frutas no mercado e dormi.

Dia seguinte, 12, me encontrei com o pessoal, entramos num grande carro offroad e tocamos até a tribo Paraitepui. Dois índios assistentes, mais três meninas japonesas e um casal francês. Trajeto de uns 70 km em menos de 1 hora. Chegamos às 14hs e os clientes foram almoçar. Eu fiquei tirando fotos. Depois fizemos breve caminhada de 3 ou 4 horas até o primeiro acampamento. Como eu andava ligeiro, mesmo carregando minha barraca, comida, fogareiro e o todo o resto, cheguei primeiro. Fiz meu miojo e desta vez os clientes ficaram me olhando comer.

Dia 13, muito sol, muito gringo, o único brasileiro naquela savana era eu. Toquei na frente o tempo todo, pois os guias estavam carregados demais. As japonesas pareciam crianças frágeis e a mulher francesa estava fora de forma, aí que só o piá francês que me acompanhou. Trilha muito sossegada, nada de problemas, nenhum bicho ou grilo que fosse. Neste dia chegamos ao acampamento base. Fiz meu miojo e o fogareiro estragou. Mais a noite, com a fome batendo de novo, tive que pedir arrego ao guia. Depois que os clientes se fartaram de comer, eles me emprestaram o fogareiro e eu fiz mais um miojo.

Dia 14, muito sol, muito céu, e todo mundo subindo a parede. Neste dia o piá francês saiu correndo. Eu estava cansado e com saudade de casa, pois lá se ia quase um mês fora de casa. Sem fogareiro também. Subi bem na boa, e de todos os gringos do mundo que estavam aquele dia escalando o Roraima, fui o sexto a chegar. Primeiro uma dupla de meninas francesas (muito lindas, por sinal), depois uma dupla de amigos bascos, e o cara francês do meu grupo. Lá em cima é tudo muito, mas muito grande. De fato, não há lugares para acampar. No máximo um bivak. Aí esperei por quase 2 horas até que o guia e o resto das meninas do meu grupo chegarem. Fomos ao tal hotel, que é como chamam as cavernas onde é possível armar acampamento. O guia privilegiou os clientes, tive que montar minha barraca num barranco, embaixo de uma goteira. Comecei a passar fome, tinha 3 miojos na mochila, mais alguns sachês de carboidrato em gel. Sem fogareiro, bom lembrar. Almocei depois que os clientes almoçaram. Jantei depois que os clientes jantaram. Eu já era quase um índio. Minha maricotinha (nome primitivo para erva que dá barato) tinha acabado também, que desgraça. Pra não perder a lucidez, comecei a cantar músicas brasileiras bem alto, para os gringos verem que mesmo na adversidade, brasileiro samba e é feliz. E não foi que uma das japinhas veio bailar comigo? Neste dia, além da exploração que fiz nas 2 horas em que esperei o guia chegar, também subi no ponto mais alto, o El Carro, sozinho.

Dia 15, sem rango, cheguei para o guia e disse que lamentava muito, mas estava indo embora. O dia estava lindo. Os clientes saíram para passear pelo platô e eu finalmente voltava pra casa. Fiquei livre no cume, fiz o que eu quis. Mas como só tinha mais um miojo e quatro saches de carboidrato, não me demorei muito. O trajeto de retorno é o mesmo da subida. São 27 km, mais ou menos. Os clientes voltam em 2 dias, eu teria que voltar a tempo de descolar uma carona na tribo. Os índios fazem o retorno em 6 horas. Eu consegui fazer em 8. Mas foi muito tenso. Calor do cão, bolha no pé, luz no olho. Cozinhei meu último miojo em uma garrafa pet exposta ao sol, em cima da mochila. Cheguei na tribo às 16h30, não tinha mais ninguém. Fiquei triste, fumei um negócio estranho que tinha no bolso, o frio aumentou, o sol se foi e a lua cheia surgiu. Montei a barraca debaixo de uma estrutura turística, agora que eu era o turista solitário no meio de uma tribo indígena. De madrugada, vi luzes de carros. Vou ver, são dois jovens venezuelanos. Fazer fotos noturnas. Sei lá. Ganhei dois sanduíches de queijo, talvez parecesse um indigente.

De manhã cedo, dia 16, um cara passa vendendo pão pela tribo. Um índio me dá a letra e lá vou eu pedir carona. Que nada, B$20 até a cidade. Fiz cara de coitado e faminto, me cobrou B$15. Voltei ao Hotel Michele, tomei um mega banho e fui comer arroz frito com carne, B$8, no restaurante do chinês. Tomei umas três cervejas, B$3. Liguei pra casa também, B$2 o minuto. Fui dormir às 20h, não tinha o que fazer.

Dia 17 peguei um táxi até a fronteira, junto com um argentino que esperava sua amiga húngara pra também subir o Roraima, B$3. De lá, outra lotação até Boa Vista. A volta custou mais barato, R$25. Atrasei o relógio, que da fronteira é meia hora mais tarde. Já na capital de Roraima, comi feito um cavalo, gastei R$21, sem bebida. No mercado comprei mais comida no cartão, mais um tanto de cerveja, e fui para o hotel. A noite saí tomar outras cervejas geladas num ponto turístico qualquer. Mega calor, todo o povo na rua, pessoas sambando, verdadeira festa.

Dia seguinte, 18, voltei pra casa. Sai de Boa Vista com um calor de 33°, cheguei em Curitiba com um frio de 9°.

-x-x-x-

Mais sobre o assunto:

- Montanhas do norte
- As 14 maiores montanhas do Brasil
- Clipe Montanhas do Norte

-x-x-x-

Sem assunto, eu? Pois é. Nos dois últimos finais de semana fui escalar, como parte do meu treinamento para escalar montanhas maiores. Achei que ninguém fosse se interessar por isso, então resolvi resgatar este pedaço do meu diário e contar a história do Monte Roraima.

Fique Informado

Escolha a maneira como você gostaria de ser avisado dos próximos posts

Bookmark & Share

Compartilhe com os seus camaradas

5 Comments

  • Pode não ser a mais alta, mas é de uma beleza impar, com aquele “cume” quadrado. Vi um documentário na globo alguns anos atras (e bota tempo nisso, gravei em VHS) sobre o MONTE RORAIMA e nunca mas tirei da cabeça, tá na lista e um dia ainda vou. Gostei de tudo no seu relato, menos da dieta a base de miojo ;-(

    intepz,

    JOPZ

  • Porra Vinícius, que trip maneira…fiquei me perguntando o pq do despreparo com relação a sua alimentação? Só levou miojo? Foi por causa do peso? O relato ficou muito legal, a subida deve ter sido incrível. Passou a fronteira carregando maricotinha? No total levou quanto de grana para a trip completa? Você está se preparando para subir qual montanha escalando?
    Parabéns pela força de vontade e coragem!

  • Muito legal o relato e principalmente a aventura, talvez tenha faltado um recheio de fotos. :-)

    Estive próximo ao Monte Roraima em 2007, em uma viagem de Manaus até Margarita (relatos em meu blog). Passei uma noite em Santa Elena, lembro bem dessa infra-estrutura toda voltada pros muitos turistas gringos que queriam ir pra montanha… Estava curioso pra saber como você tinha se virado por lá. :-)

    Infelizmente eu só estava de passagem, tive que me contentar em ver a bela montanha ao longe, como registrado nessa foto: http://www.ademar.org/fotos/manaus-margarita/img_5233.html

  • Piazada do meu coração, vamos por partes:

    Grande Jopz, o Roraima é alucinante mesmo. Sobre a dieta a base de miojo, me explico: é que eu já estava a 20 dias na estrada, sem grana e sem comida. Miojo foi só o que me restou… mas sobrevive! :-)

    Grande Jack, é verdade, tá parecendo despreparo, vou revisar o texto pra não deixar esta impressão. E sim, passei com maricotas pela fronteira :-) Sobre a grana, não lembro ao certo, mas eu já estava bem sem dinheiro mesmo.

    Grande Ademar, meu padrinho, o Roraima é alucinante, mas eu quero mesmo é saber quando você vem visitar a gente aqui em Curitiba. E claro, subir umas montanhas juntos também :-)

    Abraços aí!

  • Achei seu relato excelente; estou coletando dados para subir o monte, preferencialmente de pessoas que subiram em situações criticas como você. Andei pela serra da Mantiqueira a vida inteira e achei o terreno semelhante em alguns aspectos, e a beleza simplesmente incrível. Esses dados serão muito uteis. Li sobre pessoas que contrataram guias só do lado venezuelano, sem contato com guias brasileiros e se deram bem. Sabe algo sobre isso? Achei legal a parte que você dispensa o grupo para ir sozinho, pena que você já estava sem provisões. Eles aceitaram isso, fácil? E para descer como foi, em detalhes? Abraço cara.
    Além de miojo vou levar outros alimentos. (é uma boa né?!)

Comente