Fumando uma aranha

Publicado em 17/02/09 e arquivado sob: conficção

Chovia e fazia frio em Curitiba, o que você deve saber que é bem comum. De certo situação equivalente também no litoral. Olhando da cidade, os relâmpagos lá do mar clareavam o céu e revelavam a silhueta das montanhas da serra. A noite avançando, e eu indeciso se vestia a mochila já pronta e corria pro monte, qualquer um deles, ou se então ficava em casa. Na janela eu fumava um cigarro e pensava na minha situação, respingos minúsculos de chuva marcando o azulejo do parapeito, às vezes molhando meu braço. Aí que uma aranha vindo da parede esquerda, resolve cruzar meu caminho rumo à parede direita. Quando a percebi, estava bem abaixo do meu queixo, desviando os obstáculos de água. Um instinto cruel me fez, num reflexo, cravar a brasa do meu cigarro na criatura, bem no meio daquela carne colorida e peluda. Ouvi um barulho de bife em frigideira, e da aranha que se acoplou ao cigarro, sobraram apenas as perninhas, o corpo queimando e fazendo fumaça. Se eu me esforçasse, conseguiria ouvir a aranha gritando. Um trago profundo, a luz brilhante da brasa, as perninhas se mexendo, o fritar do tabaco misturado com o bicho. Senti um gosto amargo, tive medo de que a aranha liberasse substâncias tóxicas que abalariam meu juízo. Um tremor varreu meu corpo, começou pela nuca, acabou no rabo, o veneno já estava fazendo efeito. Caiu novo relâmpago, mas peguei minha mochila, outro relâmpago e fui pra serra do mar. A decisão que me faltava. Foi aí que andei por dois dias inteiros, entrei no Itapiroca e sai no Ciririca, suei bicas e rios, e nunca mais pus um cigarro de aranha na boca. Agora estou feliz em casa, só com cigarrinho de artista.

Aranha encontrada no Mãe Catira.

Aranha encontrada no Mãe Catira.

Artigos relacionados:

  1. Uma travessia pelo Ibitiraquire
  2. Fotos do acidente que matou uma pessoa no Anhangava
  3. Confissões de um montanhista sem vergonha
  4. Água de Vina
  5. De como me tornei um montanhista vingativo

Tags: , ,

4 comentários para “Fumando uma aranha”

  1. Bunda de montanhista cansado não tem dono | A Montanha:

    [...] saio do estádio e vou em direção ao bar. Sinto falta do meu comparsa Magreza, companheiro em degustar aranhas, que não aparece. Por sinal, nenhum dos camaradas dá as caras no bar, e eu esperando o Preto. Lá [...]

  2. niu:

    E os grilos? Você já tentou fumá-los?

  3. Vinicius Ribeiro:

    Não velho… na época, quando eu fumava, não me ocorreu experimentar grilos. Mas, se por acaso acontecer, hei de considerar esta hipótese.

  4. gustavão:

    Véio:

    A título de falar de montanha e montanhismo, vc é um grande de um contista viu?

    Sensacional este. (entre os outros)

    Caberia como uma peça de quebra-cabeça lá no nosso MCP.

    Abraço!

Deixe um comentário