Imposto de Renda de Pessoa Montanhista

Montanhista ou não, chegou o momento de acertar as contas com o imposto de renda. Exceto a pessoa que é isenta, claro. Pensando na vida e espantando as mariposas de minha lanterna frontal, enquanto voltava da montanha sábado a noite, concluí que não há muito que eu possa dizer ao governo sobre minhas finanças. Bens eu não tenho, eles já deveriam saber. Minhas posses se resumem a minha mulher, dois computadores e um carro velho, tudo quitado. Ah, um terreninho no alto da serra também, mas que daqui a pouco pode ser invadido pelos sem-terra. Impostos eu já pago aos montes, inclusive quando levo azar, como depois de ter comprado uns equipamentos no exterior e ter que ir aos correios acertar as taxas.

Minha TV é daquelas que tem tubo gigante, que pesa uma tonelada e meia. Não, não é dessas que parecem um quadro de pendurar na parede. Meus colegas de trabalho falam de suas aquisições fantásticas, de seus empreendimentos imobiliários, dos aparelhos eletrônicos de recente geração. E eu? Eu já fui à Antártica. Alguns me dizem: mas tua mulher deixa você fazer essas expedições assim, e gastar esta grana toda, sem levá-la junto? Digo que sim. E você vai pra montanha todo santo final de semana? Eu repito que sim. Então eles deduzem: é, mas isso é enquanto você não tem filho, quero quando tiver. Esses infelizes são os mesmos que me goravam antigamente: quero ver quando você se casar, se vai continuar com essas viagens irresponsáveis aí!

Meus pais me deram educação para que, além de ser alguém bem sucedido na vida, também pudesse lutar pelos meus sonhos e ideais. É isso, não é, mãe? Talvez eles imaginassem que eu fosse ficar rico, cheio de posses, com uma baita lista de impostos a pagar. Afinal, quem ganha muito também paga mais imposto. Mas não, eu possuo uma corda dinâmica de 60 metros, que tem um ano de uso e ainda vai longe. Tenho lanternas maneiras, de LED, que iluminam bem pra caramba. Meu fogareiro é mais caro que muito fogão. Dentro do armário eu deixo quatro mochilas diferentes, uma pra cada tipo de atividade. Barracas também, uma pequena, solitária; outra grande, tamanho família. Livros sobre viagens, montanhas e expedições abarrotam minha estante. Meu xodó, e que me custou mais de R$100: um álbum bacana, com meu curriculum em formato fotográfico. Está repleto de fotos únicas, com as principais montanhas que escalei, com as grandes travessias, com os melhores amigos.

Será que ando desenvolvendo remorsos por ter gasto meio carro popular pra subir as montanhas do norte do Brasil e não ter trocado meu corsinha azul que só faz queimar óleo? Estaria eu com medo de comprar uma barraca nova, que suporte muito frio, ao invés de providenciar um lugar maior pra morar e poder aumentar a família? Não pode ser. Penso apenas que este é um momento de reflexão, pois acerto de contas para montanhistas só no final da vida.

Bem, como eu queria ter dito no início, sábado subi umas montanhas do Ibitiraquire com meus bons amigos do Nas Nuvens Montanhismo. Nesta época agitada e sem tempo em que vivemos, foi uma dádiva estar com os camaradas, curtindo os prazeres de uma pernada legal. O entardecer estava belíssimo, com algumas nuvens baixas cercando as serras ao redor, e outra camada de nuvens altas dando tons de creme ao céu. Um enxame de libélulas cruzou o cume, do sul para o norte, enquanto a represa do Capivari refletia o pôr do sol. Bonito e inspirador, como sempre. Vento tinha quase nada, e a atmosfera era agradável como se espera de uma a tarde de final de verão. O que eu senti, no alto da montanha, naquele fim de dia, é o que eu sempre busco.

Sabe do que vou lembrar, quando estiver idoso, fumando meu cachimbo, sentado na varando, de boca aberta e olhando o céu? Não de carros, celulares e TVs. Vou me lembrar das montanhas que subi, dos amigos que fiz, dos lugares e povos que conheci, das emoções que vivi. Na prática, hoje, estou construindo minhas lembranças para a velhice. Esta riqueza é que vai me confortar quando tudo não passar de memórias distantes, de lugares que talvez não existam mais, de pessoas que talvez já tenham partido para a próxima. E isso, dinheiro nenhum pode comprar e imposto nenhum vai me tomar.

Pico Paraná visto do Tucum

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