O diabo perdido no Marumbi

É um comportamento recorrente, este que eu tenho, o de subestimar a necessidade de água. Lá no alto da crista, enquanto ia de uma cumeada a outra, cruzei com o diabo, a quem perguntei por água. Ele me questionou se eu sabia com quem estava falando, o que respondi que sim, evidentemente. Quer dizer, na hora não me toquei, mas depois fez sentido. O diabo gosta de fazer bagunça na casa dos outros, e ninguém estaria assim, incólume, no cume de uma montanha azul, com aquele sol todo na cabeça, então só podia ser ele mesmo.

Comentei que estava com muita sede. O diabo, sentado na pedra que marca o ponto máximo da montanha, disse que se eu realmente conhecia o Marumbi, saberia onde encontrar uma fonte do precioso líquido. Falou com um sorriso sarcástico no canto da boca, com ar de superior, e isso foi o que mais me irritou. Respondi que nem só de água vive o montanhista, mas de todo o cume que se atinge pelo próprio mérito.

Então o diabo me puxou para um canto, de onde se via a Baia de Paranaguá, o Salto dos Macacos e o Rio Nhundiaquara. Disse que me daria toda aquela água, e por acaso outras mais para minha própria satisfação pessoal, se simplesmente eu lhe indicasse como sair do Olimpo descendo para o Boa Vista. Retruquei que tão importante quanto subir uma montanha, é o caminho que se faz até ela, e que mesmo não sendo homem de desfeita, aquele não era o caso.

Não satisfeito, o diabo me pegou pelo braço e assim caminhamos juntos até o cume da Ponta do Tigre. Ele tirou uma carta topográfica da mochila, e me provocou. Disse que tinha intenção de fazer a Alpha-Ômega no inverno e que precisava de umas dicas, alguma observação, talvez um resgate em Engenheiro Lange. Garantiu me dar um isotônico gelado se eu tomasse essas providências por ele. Aí eu não me aguentei e levantei. Dei um tapinha em suas costas. Esclareci que essas coisas eu não falaria pra quem não conheço, e que também já estava farto daquele papo chato.

Pedi licença e desci. Sedento, eu deveria ter ido me encontrar com os camaradas que escalavam no Parque do Lineu, só que na Janela da Noroeste eu estava mijando vermelho, então não teria condições de fazer outra coisa, exceto tocar até lá embaixo. Desci, bebi o que pude de água, e quando já estava escuro e os pernilongos azucrinavam minhas pernas, meus camaradas chegaram cansados, relatando não terem cruzado com ninguém suspeito por aquelas bandas de cima.

Abrolhos visto da Ponta do Tigre.

Abrolhos visto da Ponta do Tigre.

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5 Comments

  • Esse paizão! Saudades Vinicius…abraço

  • Ah, o diabo…
    É nas montanhas que deus e o diabo se sentam para os mais deliciosos banquetes. Bebem até a última gota de vinho, bailando aos sons de belas trombetas e tormentas.
    Um dia fui convidado para uma dessas festas, e com a amizade deles fiquei besta.
    Se o diabo estava perdido, provavelmente estava de ressaca, e deus, não longe, deveria estar também, pois eles não andam separados.
    Oh, Marumbi das mil faces!
    Certo é, que na casa de deus, quem mora é o diabo – o senhor é sempre só mais um convidado.
    Abraços.

  • Alisson Cotrim Wozniak

    Aí, gostei muito do relato! Saravá meu filho! rs

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