Travessia Ciririca-Graciosa de ataque

De madrugada levamos uma geral da polícia. Ah, montanhistas? Indo pro Ciririca? Perfeito senhores, esta é só uma abordagem de rotina, tenham todos um bom dia.

Sob estrelas iniciamos jornada floresta a dentro, rumo ao cume do Ciririca, montanha da Serra do Ibitiraquire que na língua indígena tupi significa “grande mãe dos caranguejos do mato”. Só que um tanto antes de passar pelo cruzo que sobe o Camapuã e o Tucum, ainda noite, avistamos dois olhinhos brilhando na trilha. O bicho nos viu, e curioso, deu alguns passos em nossa direção. Suspense. O animal tinha até 1m de altura, as orelhas eram pontudas, provavelmente o peito era claro, talvez com algumas manchas. Analisando o manual de mamíferos, ficou a suspeita de termos avistado uma jaguatirica leopardus wieddi, o que foi, sem dúvida, um privilégio.

De forma lenta, alcançamos o cume do Ciririca. Breve descanso, fotos e iniciamos descida rumo ao altiplano dos Agudos. O tempo estava coberto nas altitudes superiores, e aberto abaixo de nós. Depois descemos no rio e por ele seguimos até a entrada do vale que leva à Garganta, fronteira final da Serra do Ibitiraquire. No alto deste selado deixamos caixa de registro da travessia Ciririca-Graciosa. Neste ponto também contatamos nosso resgate, na pessoa do Xandão, passando horário estimado de chegada e tal.

Continuamos a labuta, anoiteceu e ainda não tínhamos passado a grande cachoeira. Pausa pra descanso. Com as lanternas já na cabeça, voltamos ao sinistro de descer o rio no escuro. Um tanto a frente, finalmente a cachoeira, aí cruzamos as suspensas paredes de pedra, depois os poços e com alívio alguém gritou termos alcançado à passagem da mata. Basta de andar em rio, porque eu sou montanhista, não peixe.

Já cansados, fomos vencendo o trecho final da floresta, que naquela hora estava repleta de vaga-lumes. Pelo caminho havia um ovo azul no chão, um pouco maior que o de uma galinha, mas era azul mesmo, muito interessante. Choveu, parou, voltou a chover. A canseira aumentava, o sono batia, a fome só não era mais forte por causa da sede. É estranho passar sede com tanta água brotando em riachos e ribeiros. Mas enfim. Depois do que pareceu um volta completa em torno do sol, e foi quase isso, finalmente chegamos no Marco 22 da Estrada Colonial da Serra da Graciosa. A tristeza é senhora, mas a alegria é jovem!

Lá estava o Xandão nos esperando, com aquela sua simpatia e camaradagem de sempre, mais um tanto de cerveja, refrigerante e comida no bagageiro do carro. Depois agilizamos os procedimentos, buscamos os carros que estavam espalhados por aí, e voltamos pras nossas respectivas casas. O saldo final foi ter feito a travessia Ciririca-Graciosa de ataque em 20h, e ter lesionado as costelas após uma queda feia no rio. Mas a felicidade é o que conta, sempre.

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12 Comments

  • Poxa, q pernada hein!? parabéns!!!

  • Parabéns pra toda a galera do NNM.

  • Alexandre Pacheco dos santos

    Parabêns pela caminhada, com certeza é uma das mais impolgantes travessias do Paraná. O ovo azul que vcs encontraram é de Macuco, uma ave que tem o tamanho de uma galinha e de habitos terrestres, muito arisca e só vive na mata atlântica por causa da humidade e não se adapta ao frio do planalto, seu piado caracteristico como um apito como se fosse um sopro curto alto e grave de uma flauta doce.
    Segue um link a quem interessar: http://pt.wikipedia.org/wiki/Macuco

    • Fala Pacheco, tudo beleza? Valeu aí pela explicação. Foi inusitado encontrar aquele ovo azul largado no mato :-) E é um privilégio encontrar evidências da vida natural como essas, especialmente nas montanhas de nossa terra. Abraços, apareça mais vezes!

  • Grandes Jopz, Cristiano e Jurandir: valeu aí! E na prática esta mesma travessia de ataque já foi feita em menor tempo pelo Alisson e Natan, e se não me engano, pelo Élcio e Johny. Abraços pra vocês todos!!

  • Alisson Cotrim Wosniak

    Caramba! que legal.
    Vivendo e aprendendo. Cruzamos com um ovo de Macuco.
    Além de ser azul, era um baita ovo e pesadinho…

    Valeu aí!!!

  • Muito legal esse site, as histórias e estórias também…
    massa um dia talvez eu me empolgue e pense em escalar.
    muito bacana evou mostrar este seu blog para a galera também.
    that´s it Bro from your teacher Cezar.

  • Muito bem, parabéns pessoal!

    Tem duas coisas que eu queria saber e ficaria imensamente agradecido se me esclarecessem:
    1 – Do Colina Verda (na base do Cotia) até o final da travessia foi quanto tempo?
    2 – Tem mesmo trilha logo depois da cachoeira maior, que vem depois do dique? Andei dando uma inspecionada na região mas só achei trilha (e muito bem demarcada) do Marco 22 até aquela grande confluência onde o fluxo do Mãe Catira dá uma guinada de oeste para sul.

    Valeu!

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